Mercúrio na Veia

" TU ÉS COMO O MERCÚRIO ENTRE MINHAS PÁLPEBRAS.' CLEBSON LEAL
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Giacomo Balla, Iridescent Interpenetration No.13, c. 1914

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Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento



Sophia de Mello Breyner Andresen 
Livro Sexto (1962) 

Via MERCURIONAVEIA

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Giacomo Balla, Iridescent Interpenetration No.13, c. 1914

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Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento



Sophia de Mello Breyner Andresen 
Livro Sexto (1962) 

Via MERCURIONAVEIA

Autorretratos de Van Gogh no ano de 1887

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Figuras

A velhice é um vento que nos toma 
no seu halo feliz de ensombramento. 
E em nós depõe do que se deu à obra 
somente o modo de não sentir o tempo, 
senão no ritmo interior de a sombra 
passar à transparência do momento. 
Mas um momento de que baniram horas 
o hábito e o jeito de estar vendo 
para muito mais longe. Para de onde a obra 
surde. E a velhice nos ilumina o vento. 


À noite, os animais que tinham ido 
beber o brilho que lhe vem da noite, 
paravam a cheirar. E a ouvir o ruído 
crescer do sítio de onde corria a fonte. 
À noite os animais eram antigos. 
E, à volta deles, tudo o mais que fosse 
assentava na sombra. E estendia um sítio 
onde o tempo crescia para longe. 


II 

A luz dos animais sobe da negra 
solidão que os estrutura. 
E os constrange à tristeza 
dessa escuridão primordial que os funda. 
A luz dos animais sobe. Segrega 
o conciso halo de enxúndia 
com que a lavração da gleba 
percorre os membros da corpulência nua. 
E a luz dos animais pára. Os assenta 
dentro da exterioridade pura 
de os vermos sós. Na certeza 
do peso ruminante da estatura. 

Fernando Echevarría

Via MERCURIONAVEIA

CESTA FEIRA

oxalá estejam limpas 
as roupas brancas de sexta 
as roupas brancas da cesta

oxalá teu dia de festa
cesta cheia
               feito uma lua
toda feita de lua cheia

no branco
             lindo
teu amor
            teu ódio
                       tremeluzindo
                                         se manifesta


tua pompa
tanta festa 
tanta roupa
               na cesta
                           cheia
                                 de sexta

oxalá estejam limpas
as roupas brancas de sexta
oxalá teu dia de festa

mesmo
na idade
de virar
eu mesmo

ainda 
confundo 
felicidade
com este 
nervosismo


eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro do meu centro
este poema me olha 

PAULO LEMINSKI

Via MERCURIONAVEIA

Drummond

Obras do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade

“Sinto-me um pouco sem assunto todas as vezes que alguém me pede para contar minha vida. Por dois motivos: primeiro, porque minha vida é realmente pobre de acontecimentos, do ponto de vista da história de quadrinhos, da biografia política ou pitoresca; segundo, porque o que há nela de assunto já está contado tão claramente em meus livros, que não sobra nada para a conversa. Se sobrasse, não deixaria de aproveitá-lo para mais alguns versinhos… Minha poesia é autobiográfica. Até nem sei como costuma fazer tanto barulho em certos círculos. Podem não gostar dela por ser má, porém incompreensível, é exagero. É uma confissão, talvez a primeira forma de uma obra literária, obra ainda em bruto, insuficientemente transformada em criação artística.

Assim sendo, quem se interessar pelos miúdos acontecimentos da vida do autor, basta passar os olhos por esses nove volumes que, sob pequenos disfarces, dão a sua ficha civil, intelectual, sentimental, moral e até comercial… […]”

Entrevista concedida ao Jornal de letras em março de 1955

Via MERCURIONAVEIA

Mosaico mameluco do século XV
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Sintonia para pressa e presságio
Escrevia no espaço.Hoje, grafo no tempo,na pele, na palma, na pétala,luz do momento.Soo na dúvida que separao silêncio de quem gritado escândalo que cala,no tempo, distância, praça,que a pausa, asa, levapara ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,eis que a luz se acendeu na casae não cabe mais na sala.

PAULO LEMINSKI
Via MERCURIONAVEIA

Mosaico mameluco do século XV

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Sintonia para pressa e presságio

Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

PAULO LEMINSKI

Via MERCURIONAVEIA

Meninos com Carneiro-1959
Cândido Portinari (1903-1962)
Modernismo Brasileiro
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A lua no cinema
A lua foi ao cinema,passava um filme engraçado,a história de uma estrelaque não tinha namorado.
Não tinha porque era apenasuma estrela bem pequena,dessas que, quando apagam,ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,ninguém olhava pra ela,e toda a luz que ela tinhacabia numa janela.
A lua ficou tão tristecom aquela história de amorque até hoje a lua insiste:— Amanheça, por favor!

LEMINSKI
Via MERCURIONAVEIA

Meninos com Carneiro-1959

Cândido Portinari (1903-1962)

Modernismo Brasileiro

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A lua no cinema

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!

LEMINSKI

Via MERCURIONAVEIA

psiché renasce com o beijo de cupido-1777

Antonio Canova (1757-1822)

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Amar você é
coisa de minutos…

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

PAULO LEMINSKI

Via MERCURIONAVEIA

loftcultural:

Salvador Dali - After the Head of ‘Giuliano di Medici (1982)

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M. de memória
Os livros sabem de cormilhares de poemas.Que memória!Lembrar, assim, vale a pena.Vale a pena o desperdício,Ulisses voltou de Tróia,assim como Dante disse,o céu não vale uma história.um dia, o diabo veioseduzir um doutor Fausto.Byron era verdadeiro.Fernando, pessoa, era falso.Mallarmé era tão pálido,mais parecia uma página.Rimbaud se mandou pra África,Hemingway de miragens.Os livros sabem de tudo.Já sabem deste dilema.Só não sabem que, no fundo,ler não passa de uma lenda.

PAULO LEMINSKI
Via MERCURIONAVEIA

loftcultural:

Salvador Dali - After the Head of ‘Giuliano di Medici (1982)

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M. de memória

Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.

PAULO LEMINSKI

Via MERCURIONAVEIA

loftcultural:

Rene Magritte - The Castle of the Pyrenees (1959)

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Aviso aos náufragos
Esta página, por exemplo,não nasceu para ser lida.Nasceu para ser pálida,um mero plágio da Ilíada,alguma coisa que cala,folha que volta pro galho,muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,quem sabe Andrômeda, AntártidaHimalaia, sílaba sentida,nasceu para ser últimaa que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longepelas águas do Nilo,um dia, esta pagina, papiro,vai ter que ser traduzida,para o símbolo, para o sânscrito,para todos os dialetos da Índia,vai ter que dizer bom-diaao que só se diz ao pé do ouvido,vai ter que ser a brusca pedraonde alguém deixou cair o vidro.Não e assim que é a vida?
LEMINSKI
Via MERCURIONAVEIA

loftcultural:

Rene Magritte - The Castle of the Pyrenees (1959)

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Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

LEMINSKI

Via MERCURIONAVEIA

São João Batista no Deserto- 1489
Hieronymus Bosch
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O que quer dizer
O que quer dizer diz.Não fica fazendoo que, um dia, eu sempre fiz.Não fica só querendo, querendo,coisa que eu nunca quis.O que quer dizer, diz.Só se dizendo num outroo que, um dia, se disse,um dia, vai ser feliz.

PAULO LEMINSKI
Via MERCURIONAVEIA

São João Batista no Deserto- 1489

Hieronymus Bosch

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O que quer dizer

O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

PAULO LEMINSKI

Via MERCURIONAVEIA

POÉTICA DRUMMONDIANA

De 1930 a 1952

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Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Via MERCURIONAVEIA